União da Vitória PR  /  Porto União SC 

 
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A Banda Marcial Santos Anjos não tem telhado de vidro

Quando fundei a Banda Marcial Santos Anjos em 1992, tinha em mente como principal objetivo montar em nossas cidades um grupo com estrutura capaz de produzir música de qualidade e, através desta, promover um trabalho social que desse oportunidade a seus integrantes de se transformarem em “excelentes músicos profissionais” ou, caso preferissem, em “excelentes profissionais músicos”. Quero dizer, fazer com que a criança, o jovem e até mesmo o adulto pudessem encontrar na banda espaço adequado para desenvolver talentos, construir novas amizades e aprender a viver em comunidade podendo optar em tomar a música de metais e percussão como atividade profissional ou mesmo de lazer.

Desde o princípio, quando a sala da banda se resumia a um espaço inferior a 10m2, aceitamos no quadro de integrantes os alunos de outras escolas, independente de cor, credo, condição social, partido político e, óbvio, de residirem em Porto União (SC) ou em União da Vitória (PR). Sempre vi nesta atitude das diretoras do Colégio Santos Anjos, da Congregação Irmãs Serva do Espírito Santo, mais uma atividade social entre as tantas que realizam no Brasil. Fazer o bem sem olhar a quem.

E, então, a banda foi crescendo a passos firmes, mas em terreno irregular face às pedras que encontramos pelo caminho. No mesmo tempo em que eu, como coordenador e maestro, e demais colegas instrumentistas buscávamos conhecimento lá fora para distribuí-lo aqui, campanhas públicas, bingos, rifas, torneios de vôlei, jantares, almoços beneficentes e até  mesmo campanhas para arrecadação de latinhas de alumínio foram realizadas com objetivo de dar a infra-estrutura necessária ao grupo. Até a espetacular “Mostra de Carros Antigos das Gêmeas do Iguaçu” foi criada numa parceria com empresas locais, outra fonte de recursos da banda. Como se vê, não foi do dia para a noite – nem muito menos com  “Marcos [Euro] alemães”...-  que construímos uma das bandas mais conhecidas do Brasil. O Colégio Santos Anjos sempre fez e continua fazendo aquilo que está ao seu alcance. Mas manter uma banda do nível da nossa requer ainda muito mais do que “o dinheiro da escola particular”. Requer apoio de líderes políticos e de uma comunidade como um todo, que cada vez que é chamada a colaborar, comparece.

Contudo, entre as pedras do caminho estão aquelas atiradas por pessoas que acham mais fácil crescer vendo os vizinhos despencarem. E as pedras destas pessoas foram o motivo deste artigo.

 

O porquê

Dificilmente leio panfletos informativos de entidades às quais não pertenço. Não leio, por exemplo, jornais de igrejas às quais não pertenço, nem mesmo destino um segundo do meu tempo lendo jornais de facções políticas, principalmente porque não visto nenhuma camisa partidária. Bem por isto, e por outro motivos, dificilmente leio o Jornal Folha do Contestado (JFC), editado em União da Vitória (PR) e popularmente reconhecido como “petista”; mesmo tendo eu, pelas funções que ocupo, que usar de todos os meios para ficar a par dos acontecimentos. É que prefiro que as informações cheguem até mim antes de serem contaminadas, apenas isto.

Assim, a edição do dia 29/07/2003 daquele semanário chegou ontem às minhas mãos através de um aluno da banda que, até então, confessava simpatizar com o PT local. Ele até atuou como fiscal do partido na última eleição. Contudo, ficou igualmente arrasado com o que leu sob título “Escolas Municipais revoltam-se com requerimento de Sérgio Andrekowicz” e subtítulo “Vereadores aprovam verba municipal para beneficiar escola particular de Porto União”.

O artigo aborda o requerimento feito pelo vereador através de pedido do prefeito Hussein Bakri, para que a Secretaria de Finanças repassasse recursos à Banda Marcial Santos Anjos (e não ao colégio), declarada de Utilidade Pública em 1997. De acordo com o jornal, tal requerimento gerou “certa” revolta entre os diretores de escolas municipais de União da Vitória “pois muitas sequer têm suas bandas marciais nem condições de mantê-las”.

A matéria jornalística ainda faz citação do requerimento dizendo que a banda "presta brilhante trabalho junto à comunidade”. As aspas colocadas desta forma dão a entender que o redator da matéria, de maneira irônica, pretende gerar dúvidas quanto à real condição de utilidade pública da banda em União da Vitória, no Paraná.

Em primeiro lugar, se trata de uma lei. Mas, vamos ao segundo ponto. Aquele jornal sequer entrou em contato com a direção da banda ou da escola para saber a realidade atual do grupo, já que a lei é de 1997, mas somente hoje é que um prefeito resolveu destinar aquilo que a LEI lhe permite fazer.

 

Lei é de vereador do PT na gestão do PT

Na verdade, o que o prefeito Hussein Bakri está fazendo é cumprir algo que foi assumido na gestão do prefeito Pedro Ivo Ilkiv. A Lei 2508/97 é de autoria do então vereador petista Cláudio Ferreira – o “Índio”. A proposta, à época, era a de repassar subsídios mensais para que a Banda Marcial Santos Anjos (e não o colégio) realizasse apresentações de interesse do município, evitando assim o pagamento do cachê que o grupo costumeiramente cobra por apresentações em eventos que não são de caráter filantrópico, conforme manda seu estatuto. A Lei foi proposta, aprovada por unanimidade e sancionada no dia 08/12/97 pelo prefeito Pedro Ivo Ilkiv. Então a banda se apresentou em diversas ocasiões solicitadas pela administração petista, tais como abertura de jogos, apresentações natalinas (entre outras que sequer me lembro), certa de que receberia auxílio para continuar crescendo e atendendo cada vez um número maior de jovens. Contudo, o prometido repasse pela administração petista jamais foi feito. Só chegaria agora, quando prefeito Hussein Bakri quis destinar à  banda uma verba cuja importância sequer foi decidida, apesar do JFC afirmar que são R$ 2.000,00. Porto União, desde que Eliseu Mibach assumiu, repassa anualmente R$ 2.500,00 embora neste ano ainda não tenham sido liberados. O valor é quase o mesmo que o do cachê que a banda cobra para apresentações em cidades mais distantes. Para quem realmente sabe o que é uma “banda marcial”, sequer dá para comprar um euphonium, uma trompa, quiçá uma tuba, instrumento que hoje chega à casa dos R$ 10 mil a unidade. Hussein fez o mesmo com outras entidades culturais que, embora em União da Vitória, também agregam pessoas de Porto União.

 

Colégio particular mantém banda como ferramenta social

Já que a (o) jornalista não foi até a banda para conhecer o trabalho, deixa que eu apresento.

Há anos a música deixou de ser tratada dentro da Banda Marcial Santos Anjos como  “simples objeto de realização artística”, muito embora o que fazemos hoje, nós, músicos da banda, é “conversar  através da música”. Hoje, os acordes anunciam também a maturidade musical que foi conquistada através de cansativos e onerosos cursos, viagens (muitas vezes viagens com o carro dos outros...), pesquisas, estudos, concursos e festivais afins ao longo destes onze anos de atividade ininterrupta formando GRATUITAMENTE músicos, quer sejam eles petistas ou não, de Porto União ou União da Vitória.

Além da correta aplicação da teoria musical (na BMSA lemos “partitura*”, embora o maestro Raulino Bortolini insista em dizer que só integrantes de uma banda musical é que lêem...); da técnica instrumental, da técnica de respiração, da postura, higiene e das aulas de relacionamento; integrantes da banda marcial do colégio particular Santos Anjos recebem gratuitamente o instrumento musical, o uniforme que inclui até o sapato – embora estejamos TRABALHANDO para comprar novos, pois no Cinfaban quase perdemos o concurso por causa deles, que já têm oito anos de uso. Como se vê, nada acontece da noite para o dia.

Além de não fazer restrições a quem queira integrar a banda da sua escola, as Irmãs do Colégio Santos Anjos anualmente escolhem entre os alunos que se destacam na banda, mas que não são matriculados na escola, alguns para ocupar uma das bolsas oferecidas, cada vez que o ciclo de formação é concluído. Ou seja, quando um músico que é aluno bolsista deixa a 3ª sério do ensino médio, abre uma vaga que será ocupada por outro escolhido pelo seu desempenho e comportamento na banda.  No colégio Santos Anjos há alunos carentes de União da Vitória que além da bolsa, receberam o uniforme da escola e as apostilas. Quem paga é a banda, através de contribuição dos demais integrantes; tudo isto para dar oportunidade e através desta ensinar aos demais que a fraternidade é algo necessário.

A banda apóia além do nível escolar fundamental. Através de um convênio com a Uniguaçu de União da Vitória, três músicos (um deles do Bairro São Cristóvão) estão se formando naquela importante faculdade com significativos abatimentos nas mensalidades, parcela que é compensada com apresentações da banda em atividades culturais a escolha da faculdade. A bandas também intermedeia oportunidades de emprego para os integrantes mais necessitados através de convênios que mantém com a Farmácia Rodocentro, Bebidas Goslar, Oficina Santo Antônio e até mesmo com este jornal.       

* Partitura musical é o conjunto das partes da música. Assim, o maestro lê a partitura enquanto os músicos lêem as partes.

 

 

Imponência X benevolência

A diretora do colégio municipal Fruma Ruthemberg, Dilmara Aparecida Deniski de Paula, disse através da matéria no JFC que “os vereadores terem aprovado esse requerimento é totalmente injusto. O dinheiro vai para outro estado, outro município e ainda para uma escola particular que tem condições de conseguir recursos de outra maneira”. Que falta de propriedade e de informação! Não é injusto pois é uma lei. “Revogadas as disposições em contrário, esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação”. Lei esta que foi aprovada em 1997, quando outros vereadores compunham o legislativo. Lei que agora, finalmente, foi “reapresentada” e aprovada  novamente por unanimidade (incluindo os vereadores petistas). Obviamente se “o dinheiro vai para outro estado”, irá para outro município. Contudo, estamos “falando”das cidades irmãs, Porto União da Vitória. Realmente a única coisa possível de se tratar de maneira distinta por aqui é a administração pública. No mais, “a cidade é uma só”, não há como querer erguer um “muro de Berlim”. O dinheiro pode até ir para outro estado, mas o fruto da sua aplicação na Banda Marcial Santos Anjos soará pelas cidade irmãs como uma só comunidade, seja com o ensino gratuito da música ou com a oferta gratuita da música pronta como aconteceu por ocasião da Abertura dos Jogos da Juventude do Paraná, no dia 16 de julho, quando a banda abrilhantou o acontecimento e nada cobrou.

A diretora Dilmara afirma que a “escola Santos Anjos é particular e tem condições de conseguir recursos de outra maneira”. De fato é particular e aquilo que aplica na Banda consegue das maneiras mais justas possíveis. Inclusive recebendo apoio do município ao qual atende indistintamente. A Banda Marcial Santos Anjos - a verdadeira beneficiada - é uma entidade sem fins lucrativos, que possui uma diretoria, CNPJ e estatuto próprios. Estatuto este que até foi copiado e levado para outro colégio que formou sua banda recentemente.

Ainda na matéria, a diretora afirma que a “banda marcial” da sua escola está desativada por falta de condições para contratação de profissionais e aquisição de instrumentos. Pelos instrumentos musicais que possuem escola Fruma Ruthemberg, não se está formando uma banda marcial, mas sim uma fanfarra. Seria interessante a diretora começar sabendo com o que está lidando, que espécie de grupo musical está formando na escola, pois ficará mais fácil contratar “um profissional” e adquirir os instrumentos corretos. Isto se consegue através de leis de incentivo à cultura, Lei Rouanet, projeto Bandas de Música do Ministério da Cultura e até mesmo através de auxílio da prefeitura. Contudo, sempre tentando conquistar seu espaço sem querer derrubar o trabalho do vizinho que, inclusive, está embasado na Lei.

Quanto ao “profissional” a ser contratado, infelizmente no Brasil a profissão “Maestro de Banda” ainda não é regulamentada, nem reconhecida. Entretanto é possível conseguir bons músicos através do projeto “Amigo da Escola” ou pela “Lei do Voluntariado”. Bons músicos que muitas vezes se formam na própria Banda Marcial Santos Anjos. Basta pesquisar, trabalhar, iniciar o projeto, colocá-lo à prova de das dificuldades e anos a fio de luta e, então, quando o grupo estiver na rua, servindo até de “bode expiatório”para mesquinharias políticas como agora acontece conosco,  mostrar ao prefeito e ver o que ele pode fazer por algo que existe.

Enquanto isto, como diretor de escola, como instrumento da educação, seria interessantes entender que o Brasil não está limitado ao muro da sua escola, seja ela particular, estadual ou municipal, um prédio imponente ou uma palafita. Entender que este muro não pode tapar a visão do aluno caso ele queira desenvolver uma atividade – música, dança, esporte, capoeira, pintura, teatro – que na escola - rica ou pobre - ainda não é difundida. Entender que se a criança que bate à sua porta tem condições e oportunidade de conseguir espaço numa escola particular através de seus méritos, tal chance não deve ser ceifada. Por fim, entender que a educação, em todas as suas formas, não tem hora, cidade ou duas, estados diferentes nem bandeiras partidárias sustentadas por muitos que agora se contradizem... “Agora é injusto”. Quando “o Índio” propôs a Lei em 1997, com o PT na situação, não era.

Quem tem a produção de um jornal nas mãos em nossas cidades deveria pensar em construir coisas mais positivas do que perseguições políticas usando entidades culturais (e seus beneficiados diretos) para atingir um prefeito ou vereador da oposição. Deveriam ajudar a fomentar uma banda marcial na escola Fruma Ruthemberg, mas sem arrancar (como fizeram com os trilhos da ponte férrea) da realidade histórica aquilo que a Banda Marcial Santos Anjos já fez pelas cidades irmãs.

Fazer como o vereador Sérgio Andrekowicz, que é diretor do colégio Túlio de França, em União da Vitória, escola estadual que está reestruturando – com muito sacrifício, mas honestidade – a sua banda marcial que na década de 80, com uniforme azul e vermelho, era a sensação dos desfiles do Sete de Setembro. Ainda assim ele propôs o requerimento aprovado por unanimidade, pois é pessoa suficientemente esclarecida para reconhecer um trabalho cultural que há anos é feito com muita dedicação, amor e qualidade, sendo estendido a quem dele bem quiser tomar parte. Um trabalho cuja casa está no terreno vizinho sim, mas não tem telhado de vidro. Portanto, podem continuar atirando as pedras.

 

 

 

Em onze anos, alguns formandos da BMSA

Alessandro Koslowski

Residente em União da Vitória, iniciou tocando na Fanfarra do Colégio José de Anchieta. Na Banda Marcial Santos Anjos entrou em 1995 aprendeu trompete, teoria musical e hoje cursa licenciatura em música na Faculdade de Belas Artes do Paraná, em Curitiba. Já ocupou palco com as bandas Alma Nua e By Brazil.

 

Anderson Fabrício Pereira

Residente em Porto União, iniciou tocando na Fanfarra do Germano Wagenfhur. Na Banda Marcial Santos Anjos entrou em 1992 e  aprendeu trombone, teoria musical, computação em software musical. Já ocupou palco com as bandas Alma Nua e By Brazil  seus arranjos musicais são muito requisitados.

 

Danilo Koch Jr

Residente em Porto União, iniciou tocando na Banda Marcial Santos Anjos em 1997. Tornou-se chefe do naipe de percussão. Hoje, aos 19 anos,  estuda percussão em Curitiba, tendo atuado com a Orquestra Sinfônica do Paraná por diversas vezes e com a Orquestra Scar de Jaraguá do Sul. Na semana passada, numa promoção da Secretaria do estado da Cultura do Paraná ministrou em Faxinal do Céu  aulas de percussão num curso que contou com mais de dois mil inscritos.

 

Emerson Jhony Marques

Residente em Porto União, iniciou tocando na Fanfarra do Colégio São José. Na Banda Marcial Santos Anjos entrou em 1995e aprendeu trompete, teoria musical e hoje compõem também a Banda By Brazil.